Entre a ciência e o hype: até onde vai a medicina regenerativa na estética?

Escrito por Dra. Daniela Aidar | Sep 16, 2026, 8:20:42 PM

Por Dra. Daniela Aidar
Dermatologista
CRM 156459 / RQE 60488

Se você acompanha o mundo da dermatologia, já deve ter notado: médicos e pacientes desesperados por novidades, pelo “novo produto que vai revolucionar a medicina estética”, pelo “regenerar a todo custo”, pelo “novo injetável melhor do que o do mês passado”. A cada congresso, uma nova “inovação” que rapidamente ganha espaço nas mídias sociais.

Mas será que tudo isso realmente traz benefício para nossos pacientes? Ou estamos apenas sendo engolidos por uma onda de marketing fantasiada de medicina regenerativa, muitas vezes sem o embasamento científico necessário? Será que não estamos sendo empurrados goela abaixo algo que, no fundo, não é tão bom assim?

A ideia que fica, pra quem vê de fora é: médicos que não usam essas novidades não estão atualizados. E muitos profissionais acabam entrando nessa onda por medo de “ficar de fora” em um mercado que valoriza o novo o tempo todo.

Mas precisamos nos situar aqui em algumas coisas.

Em primeiro lugar, nem sempre sabemos exatamente o que estamos regenerando. A palavra ficou “no hype” e passou a ser usada de forma indiscriminada. Mas não é assim que funciona. Estamos tratando, melhorando alguns aspectos, estimulando processos. Regenerar, de fato, é um conceito muito mais profundo.

Vivemos um momento em que há lançamentos quase diários. E é justamente por isso que precisamos ter cuidado. Existem, sim, abordagens promissoras (não há dúvidas!), mas ainda não sabemos o real benefício de muitas delas, seus efeitos a longo prazo, se existe padronização adequada, se há segurança real e reprodutibilidade clínica.

Os exossomos são um exemplo claro disso. São, sem a menor dúvida, uma descoberta inovadora e provavelmente vão mudar caminhos no futuro. Mas, hoje, seu uso ainda é cercado de incertezas: variabilidade de origem, ausência de protocolos bem definidos, pouca clareza sobre segurança e benefício clínico sustentado. Lá na frente, poderemos ter surpresas positivas, mas é preciso calma. Ainda há muito a ser estudado. No meu posicionamento, prefiro não utilizar neste momento. Prezo demais pela segurança dos tratamentos que realizo na minha clínica.

É exatamente por isso que, como médica dermatologista pautada em ciência, eu valorizo tanto as tecnologias. E quando falamos de tecnologias desenvolvidas por empresas que investem pesado em estudos científicos, segurança, protocolos claros e acompanhamento de longo prazo, melhor ainda.

É absolutamente possível obter grandes resultados em dermatologia estética sem “inventar moda”. Apenas com ciência, estudo consistente e observação clínica responsável.

Acredito profundamente que o futuro da dermatologia passa pelas tecnologias que vêm sendo cada vez mais estudadas de forma séria. Um exemplo disso é o conceito de adipogênese induzida, ou seja, o estímulo de gordura por meio do ultrassom microfocado. Algo que, até pouco tempo atrás, parecia improvável. Muito pelo contrário: a ideia de que o ultrassom microfocado consumia gordura chegou a aterrorizar pacientes e viralizar nas mídias sociais.

Outra grande evolução foi a melhora do conforto por meio da maior precisão do ultrassom microfocado. Quantos pacientes a mais podemos tratar graças à redução do desconforto e à rapidez do procedimento, melhorando também nossos resultados clínicos?

Tecnologias como o LinearZ não surgem como promessas vazias, mas como resultado de anos de pesquisa, ajustes de parâmetros, compreensão dos tecidos e validação clínica. Não é preciso criar algo mirabolante. É preciso entender profundamente o que aquela tecnologia faz, em que paciente, em que camada e com quais limites.

Talvez o maior avanço da medicina estética neste momento não esteja em correr atrás do próximo lançamento, mas em aprender a dizer não. Não ao efeito manada. Não à promessa sem ciência. Não ao uso indiscriminado do que ainda não está pronto. Isso não só é agir de maneira responsável, como também nos diferencia como médicos.

Médicos promovem saúde. E como promover saúde se fizermos algo que ainda não está protocolado? Queremos, sim, melhorar a estética dos nossos pacientes. Mas a saúde vem primeiro.

Talvez o maior avanço esteja em estudar mais profundamente as tecnologias que já temos, em entender como otimizá-las para cada paciente, em melhorar resultados e personalizar condutas.

Para mim, o futuro também é personalizar. Porque regenerar não é fazer tudo a qualquer custo.

É pensar, com responsabilidade, no real benefício para o seu paciente. Entregar resultados consistentes, gerar satisfação, melhorar autoestima. Existe algo mais elegante e verdadeiramente inovador do que isso?